
Algumas palavras sobre o Babau da Paraíba
Kaise Helena Teixeira Ribeiro[1]
De 07 a 09 de maio de 2009, aconteceu o 1º Encontro do Babau da Paraíba realizado em
João Pessoa como parte das atividades paralelas previstas no processo de Registro do Teatro
de Bonecos Popular do Nordeste - IPHAN/Ponto de Cultura Invenção Brasileira/ABTB[2].
Este evento visava, principalmente, participar junto aos mestres do Babau paraibano, o
acontecimento do referido processo de registro em andamento e a audiência de suas
impressões, opiniões e demais observações que pudessem ajudar a nortear as futuras
propostas de salvaguarda, bem como, que pudessem promover, efetivamente, ações imediatas
e emergenciais.
A programação diurna estava dividida em mesas de exposição do referido processo e em
rodas de conversa, onde, sobretudo os mestres puderam expor seus pontos de vista, relatar
suas histórias de vida, mostrar sua mala ou caixa de bonecos e objetos de cena e falar do seu
trabalho com o Babau. À noite, os mestres se apresentaram no centro cultural da cidade.
Estiveram presentes oito mestres: mestre Clóvis, mestre Clébio e mestre Luís do Babau de
Guarabira; mestre Maestro de Bananeiras; mestre Paulo de Mogeiro; mestre Inaldo de São
José dos Ramos; mestre Ramiro (Miro do Babau) de Marí e mestre Vavau de João Pessoa.
Alguns desses mestres estão sendo 'resgatados' de uma longa jornada, de anos sem
brincar. As causas que nos foram relatadas dizem respeito a uma série de questões:
desmotivação pessoal; a não compreensão de uma dimensão mais ampla desse teatro que não
tem conseguido fazer frente à indústria cultural imposta pelos grandes meios de
comunicação; questões relacionadas à conversão religiosa ao protestantismo; e, finalmente,
pela constante falta de interesse das instituições do poder público local, que não os valoriza e
nem os incentiva principalmente negando a possibilidade de contratos efetivos. Isso tem
gerado uma espécie de abandono de sentido da necessidade da brincadeira diante da
necessidade de sobrevivência que urge no cotidiano. Inseridos neste contexto, o encontro
entre os próprios mestres, por sua vez, o contato entre aqueles que não se conheciam e que,
de repente, se viram como parte de um grupo bem maior do se imaginava, proporcionou uma
revalidação do brincar. Novas perspectivas se configuraram.
Como alguém que tem contato com o Mamulengo há mais de doze anos e, que agora vive a
experiência de compor a equipe de pesquisa do processo de registro, esse encontro, a estada
com esses mestres e a audiência às suas apresentações representou uma ampliação da
compreensão do que seja o teatro de bonecos popular do nordeste. A cada novo encontro, a
cada nova oportunidade similar a essa, calo-me momentaneamente do discurso de quem
entende alguma coisa sobre esse teatro. Este texto é uma tentativa de organização dessas
sensações inevitáveis.
Acerca da programação diurna do encontro, tivemos um público composto principalmente
de alunos e professores da UFPB. A presença do poder público foi escassa - somente o Sr.
Emilson Ribeiro, responsável pela cultura popular da FUNJOPE e a Srª Maria Aparecida
Rodrigues, prefeita do município do São José dos Ramos, além de, é claro, o IPHAN
nacional e regional e as instituições de iniciativa privada envolvidas diretamente no processo,
marcaram suas presenças. As palestras foram feitas direcionadas principalmente aos mestres,
em linguagem simples e na intenção de ser o mais dialógica possível. Os mestres
manifestaram no microfone (e fora dele) a diversidade de suas demandas e impressões: a
alegria em participar do encontro, os motivos da descrença no babau, as expectativas que o
encontro estava suscitando neles.
Alguns relatos, em especial, foram realmente altamente imagéticos e emocionantes.
Destaco, por exemplo, mestre Clóvis, que em seu relato, se emocionou (e nos emocionou)
profundamente quando nos contou da primeira escola que aceitou uma apresentação sua,
depois de uma longa sequência de 'nãos' que havia recebido; mestre Inaldo, com sua fala
serena e cheia de suspensões, a poética imagem do quintal de sua casa, na infância,
descrevendo poeticamente os sons dos animais e seus pensamentos de menino, ali, naquela
situação de ter responsabilidade de cuidar da casa e dos irmãos na ausência dos pais e depois
relatando o apoio que recebeu de sua mãe para brincar o Babau; mestre Ramiro, contando de
um jeito apressado e impaciente a sua história, mas depois, nos encantando enquanto cantava
uma de suas pérolas de repertório de cantor brega mobilizando toda a platéia com a sua
crença na maravilha da vida; mestre Vavau, contando da sua desobediência ao pai, não
enterrando os bonecos que ele pediu em seu caixão e sim continuando a brincadeira, como
um verdadeiro e leal discípulo do pai. Outros encantaram apenas por sua simplicidade, seu
olhar, seu sorriso e também, outras histórias, tão interessantes quanto as citadas acima.
Na programação noturna, na brincadeira dos mestres, observei que a maioria apresenta
uma estrutura muito aberta e improvisacional, de diálogo muito direto com a platéia. Alguns
estavam distantes do exercício desse diálogo com o público, prolongando o tempo da cena e
diluindo a história que apresentavam. A figura do Mateus aconteceu na maioria das
apresentações, só que improvisada, com um rapaz chamado Jonas, que veio acompanhando
mestre Ramiro. A participação dos mestres que estavam na platéia, com ou sem a figura do
Mateus, foi marcante, eles se levantavam, falavam diretamente com os bonecos, participavam
ativamente.
Em relação à parte dramatúrgica, a maior parte das brincadeiras tem como ponto principal
o pedido de casamento, ou o romance, ou o convite para dançar que Benedito faz para a filha
do Capitão João Redondo. Outros personagens que aparecem com freqüência são: os
policiais, o capanga, o coronel, o padre, o catimbozeiro, o boi, a cobra, as bonecas (de pano)
dançantes. Praticamente todos os bonecos são de luva, exceção apenas para alguns bonecos
de vara de mestre Clóvis, mestre Ramiro e mestre Paulo, cujos bonecos são, em sua maior
parte, esculpidos de corpo inteiro e, em comparação com os dos outros brincantes, bem
menores. Existem ainda bonecos que são bonecas, de criança brincar, toda de plástico, estilo
Barbie.
Os materiais com os quais os bonecos são confeccionados são, predominantemente, das
madeiras mulungu, imburana e uma que chamam de tambô (ou tambor), tecido e fibras
naturais como cabelo humano e pêlo de bode. Há ainda a incidência (menor) de bonecos de
talo de buriti, papel maché, plástico (cabeças e/ou mãos de bonecas de plástico) e material de
'reciclage' (garrafas pet).
À exceção de uma enorme quantidade de cenas cômicas que eu não conseguiria descrever
em detalhes aqui, gostaria de destacar, como espectadora, a cena do catimbozeiro de mestre
Maestro, que faz um jogo de palavras hilário e a aparição da terceira moça para casar com
alguém da platéia, que é uma aparição mesmo, fantasmagórica; a cobra de mestre Clóvis, que
é capaz de assustar de maneira surpreendente dado clima de suspense que o mestre consegue
criar, até mesmo fazendo uma demonstração com ela, fora da empanada; a cena do coveiro
carregando o morto, de mestre Inaldo, cuja incelença[3] e movimentação de cena, executada
de forma solene e poética silencia a platéia; a cena do bêbado na brincadeira de mestre
Vavau, que volta à cena sendo carregado por dois amigos, com corpo de morto e surpreende a
todos quando passa mal vomitando 'de verdade'.
Foi muito proveitoso participar das conversas com os mestres nas horas de intervalo, ouvir
suas histórias, levantar também pontos para reflexão quanto às problemáticas que eles vivem
não estarem isoladas do mundo das demais formas de teatro e da cultura popular, instigá-los a
se procurarem mais e a se ajudarem mais, entre si, assim como buscarem também caminhos
que possibilitem a manutenção do brinquedo e a continuidade do Babau.
É obvio que também em muitos aspectos podemos melhorar nesse diálogo e no
encaminhamento das ações necessárias, mas percebo que, ao mesmo tempo, é preciso
fortalecer a rede que os une entre si, nos une a eles, e pode vir a fazer com que, socialmente,
eles acessem mais seus direitos de cidadão e de artistas que são. Não me pareceu que eles
estejam, em sua maioria pelo menos, em suas localidades ensinando o Babau para as novas
gerações. Alguns deles, até pelo tempo que não brincam, podem até nem terem sido vistos
ainda nelas novas gerações do seu município.
A tarefa de reverter esse quadro não cabe somente a eles mesmos e aos pesquisadores.
Mais pessoas, de outras esferas precisam ter conhecimento dessa realidade e dessas
demandas. Não é a primeira vez que essa oportunidade aparece para os que se interessam e se
comprometem com a causa do Babau e do teatro de bonecos popular do nordeste. A sensação
de 'momento histórico' é muito evidente e falada, está quase se transformando num chavão.
Mas como tornar esse momento, aparentemente pontual, em tempo contínuo, como 'esticar'
esse momento histórico até que algo de mais significativo em favor desses mestres possa se
concretizar?
Brasília, 11 de maio de 2009.
[1] Atriz, bonequeira e professora de Artes Cênicas. Atualmente, é aluna do Mestrado em Artes, na linha
Processos Composicionais para a Cena, com o projeto "A dialogicidade no Mamulengo: interações construtivas
da performance" orientado pela Professora Drª Izabela Brochado. Está ainda na coordenação de Pesquisa no DF,
do processo de Registro do Teatro de Bonecos Popular do Nordeste do Brasil: Mamuelngo, Babau, Cassimiro
Côco, João Redondo.
[2] Para este encontro, compuseram a parte a executiva: a ONG Cia Boca de Cena e a produtora Bom Texto.
[3] Canto fúnebre.
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