28/09/09
Saímos no Correio Braziliense - 29.09.09
por Marcos Linhares

Matéria do Braziliense fala sobre a 46a. Festa da Morte do Boi do Seu Teodoro

Sobradinho

Boi do Teodoro faz 46 anos

O boi estava bonito, mas pouca gente saiu de casa para assistir a uma das mais tradicionais manifestações culturais do Distrito Federal

  • Mariana Flores
Fotos: Evandro Matheus/Esp. CB/D.A Press
A Festa da Morte do Boi encerra a temporada deste ano da tradição popular que nasceu do desejo de uma escrava grávida de comer língua de boi

Seu Teodoro, 89 anos, trouxe o boi para Brasília: "A cidade merece"
 


Terra escolhida para moradia de 112 mil maranhenses, segundo números do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Brasília ontem foi palco de uma manifestação cultural muito popular no estado. Pelo 46º ano seguido, foi realizada a Festa da Morte do Boi do Seu Teodoro. Com 89 anos de idade, o maranhense Teodoro Freire, que há 46 anos mora na capital federal, organizou ontem mais uma edição do evento, que já virou tradição em Sobradinho. Mais de 200 pessoas assistiram à encenação da morte do boi. Segundo a lenda, o abate ocorreu para que o vaqueiro Pai Francisco conseguisse realizar o desejo de sua mulher Catirina. Grávida, ela queria comer a língua de um boi e não um boi qualquer, mas o preferido do patrão do casal de escravos, o que tornou a tarefa bem difícil. A morte do boi encerra as atividades anuais do Bumba-meu-boi, que começam no Sábado de Aleluia.

"O boi é uma figura muito importante para nosso povo, vem da época da escravatura. Lá no Maranhão tem várias festas, cada um quer fazer um boi melhor do que o outro e aqui em Brasília nossa festa já está se tornando tradição em Sobradinho. Brasília merece isso", afirma Seu Teodoro, que conta com recursos governamentais para a realização.

A comemoração começou na terça-feira e teve seis dias de extensa programação, com apresentações musicais e de filmes, rezas, entre outras atividades. De sábado para domingo não houve descanso. Pela tradição, é na madrugada que o boi foge da malhada e consegue escapar de seu algoz. Logo após as 17h de ontem, ele reapareceu, e a festa teve seu ápice. Pessoas fantasiadas, representando a população que quer proteger Pai Francisco da fúria do fazendeiro, dançaram e cantaram nos gramados do Centro de Tradições Populares de Sobradinho. Depois do ritual é feita a reza da ladainha no pé do mourão e o sangue do boi, na verdade um vinho tinto, é servido aos presentes.

Pelo segundo ano representando, respectivamente, Pai Francisco e Mãe Catirina, o casal de servidores Raimundo Silva e Maria da Conceição Tavares de Oliveira passaram a noite em claro, mas comemoram a participação na festança. "Antes eu era mais uma vaqueira, agora sou a protagonista", brinca Maria da Conceição, de 56 anos, 32 deles vividos em Brasília. "É muito bom participar e poder relembrar nosso povo", completa o marido, de 55 anos.

Outro que virou a noite esperando a hora da matança foi o também servidor Francisco Paulo Ferreira, de 47 anos. Com a função de proteger o boi, ele se transformou no vaqueiro. Há 27 anos, desde que deixou São Luís para se mudar para Brasília, Francisco desempenha o papel. "Ajuda a matar a saudade, além de ser bom espalhar a cultura. O bumba-meu-boi é um dos poucos movimentos culturais que está presente em todo o Brasil. Temos que manter a cultura, o que é complicado nos tempos de hoje, com tanta tecnologia no mundo."

Quem foi assistir gostou do que viu. A aposentada mato-grossense Cida Biondo, de 56 anos, de passagem por Brasília para visitar o filho que mora na cidade, era novata no assunto. Nunca tinha assistido ao ritual e nem sabia muito sobre a tradição, mas elogiou bastante o espetáculo. "Gosto de festas culturais, não conheço a história, mas estou achando tudo bem interessante." Mais experiente na cultura do estado, a maranhense Marlene Gouveia, de 71 anos, gostou da encenação do Seu Teodoro. Há 13 anos no Distrito Federal, ela assistiu ontem à morte do boi depois de anos sem participar da festa. "Lá em São Luís é tradicional, uma festa muito bonita. Estou gostando bastante desta, substitui bem as que temos no nosso estado. É uma forma de lembrar do meu povo."

 

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